Dos Jardins Suspensos de Belém do Pará à Amazônia em cinzas

Dos Jardins Suspensos de Belém do Pará à Amazônia em cinzas


Enquanto a floresta arde em chamas, a grilagem avança como praga sem controle e o desmatamento corre solto, a cidade ergue obras e florestas de mentirinha

Leonardo Macêdo/Ascom Seopárvore artificial em Belém
Após críticas, a Prefeitura de Belém trocou o termo “árvores artificiais” por “Jardins Suspensos”

Belém vem se preparando para a COP 30 (Conferência das Partes da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima), que será realizada na capital do Estado do Pará entre 10 e 21 de novembro de 2025. Entre guindastes e tapumes, surgem estruturas metálicas revestidas de verde no início batizadas pela prefeitura como “árvores artificiais”. Diante da enxurrada de críticas populares à proposta conceitual, foram rapidamente rebatizadas de “jardins suspensos” — recomendo fortemente que assistam ao post do Lucas Perpetuo no Instagram (veja abaixo) —, que podem ser descritos como esqueletos de metal, enfeitados com trepadeiras vivas escolhidas sem critério aparente e que lutam para sobreviver ao sol escaldante paraense.

Penduradas em vergalhões metálicos que, como resíduos de obra, seriam descartados, essas estruturas são apresentadas como uma solução sustentável — uma tentativa superficial de transformar o processo e a proposta em “ecológicos”. Ainda assim, essas esculturas cenográficas prometem sombra aos diplomatas que, de blazer e café “termossustentável” (provavelmente levarão suas garrafinhas térmicas para enchê-las de café brasileiro coado em substituição às cápsulas de café expresso), discutirão como salvar o planeta depois de terem chegado à cidade pela nova rodovia de quatro faixas que cortou dezenas de milhares de hectares de floresta amazônica protegida.

De um lado, operários suam sob o sol inclemente para instalar esculturas verdejantes que prometem sombra pronta — sem precisar esperar décadas, como fazem as árvores de verdade. “É tecnologia de ponta!”, reitera um dos responsáveis pela instalação de 180 delas. Do outro lado, nas margens da Avenida da Liberdade, são as motosserras afiadas e tratores que avançam dia e noite, convertendo floresta em pé em árvores tombadas (literalmente), cujas toras empilhadas ladeiam cerca de 13 km de estrada ligando o progresso ao caminho linear verde.

O futuro distópico que imaginávamos distante materializa-se no presente: a Amazônia arde em chamas, a grilagem avança como praga sem controle, povos originários agonizam na fila da procrastinação política e o desmatamento corre solto, sob o aplauso disfarçado de um governo que chama isso de “progresso”. Em meio ao caos, a cidade ergue obras e florestas de mentirinha, esquecendo-se de que, sem a consulta às comunidades locais e à participação da população nas decisões sobre seu território, apenas ampliam a lacuna entre aquilo que se diz sustentável e o que é de fato. A solução é local e não passa exclusivamente pelos “jardins suspensos de Belém do Pará”, mas também no saber indígena que preservou a floresta por milênios e na governança que nasce das ruas, não dos gabinetes. 

A proposta, lembra muito os Jardins Suspensos da Babilônia — uma das chamadas maravilhas do mundo antigo, que talvez nunca tenham existido de fato, mas que continuam a inspirar ideias de equilíbrio entre arquitetura e natureza. A diferença é que, enquanto os jardins da antiguidade eram, no máximo, uma lenda, a Amazônia é bem real e continua sendo queimada, desmatada e exposta a secas severas diante dos nossos olhos.

 

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Uma publicação compartilhada por Lucas Perpetuo (@luscafusca150)

Nabucodonosor II, lá na Babilônia, construiu seus jardins para uma rainha aparentemente entediada. Dois milênios depois, erguemos os nossos para uma plateia de #hashtags. A esposa do rei queria um pedaço de sua terra natal; nós queremos um story no Instagram com a #COP30Sustentável. E assim, entre andaimes e discursos, Belém se transforma num parque temático da ecologia, onde até a sombra é fake. Afinal, em tempos de pressa, é mais rápido imitar a natureza a preservá-la. Enquanto delegados posam para fotos sob folhas cujo tempo de vida incerto depende da manutenção da prefeitura, o rio Tapajós, a poucos quilômetros dali, seca em velocidade recorde. Os peixes boiam de barriga para cima, mas quem se importa? 

E em uma cidade que sofre com quedas de árvores centenárias durante o inverno amazônico, a solução não foi fortalecer o manejo urbano ou criar planos de arborização adaptados às condições locais. Foi importar uma ideia de Singapura, como se o equador asiático e o paraense compartilhassem os mesmos desafios. Enquanto isso, arbustos nativos, árvores de pequeno porte e espécies perfeitamente adaptadas ao clima local esperam, em vão, para serem consultadas.

No fim, a COP 30 será lembrada não pelo que plantou, mas pelo que ignorou: enquanto construímos árvores artificiais, as de verdade viram cinzas. E os Jardins Suspensos da Babilônia, se é que existiram, ao menos viraram mito. Os nossos? Serão só mais um post esquecido no feed do planeta. Pergunto-me de que adianta pendurar jardins no céu se o chão está em brasa?

*Esse texto não reflete, necessariamente, a opinião da Jovem Pan.





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