Jorge Viana afirma que Lula defende multilateralismo; economistas avaliaram que Brasil poderia aproveitar taxa menor que as impostas a outros países
O presidente da Apex (Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos), Jorge Viana, disse nesta 5ª feira (3.abr.2025) não ver vantagens para o Brasil com a política tarifária iniciada pelos Estados Unidos.
A taxa imposta aos produtos brasileiros foi de 10%, o valor mínimo é menor que o percentual de 60 países. Economistas haviam dito que o resultado poderia trazer oportunidades para fortalecer as relações com os EUA e com os países com taxas maiores.
“Não consigo enxergar vantagem nenhuma quando o mundo pode piorar sua relação comercial. Foram os EUA que introduziram há décadas a ideia do livre mercado, dos conglomerados, dos acordos comerciais […] De fato, para o mundo ficar mais pacifico, tem que ser mais transacional entre os países”, declarou Viana na sede da agência, em Brasília.
A Apex é uma agência do governo federal do Brasil voltada para a promoção do Brasil no mercado internacional e para a atração de investimentos estrangeiros diretos ao país. Começou a funcionar 2003, pelo formato atual do órgão. É vinculada ao Mdic (Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços).
Aliado de longa data de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), Jorge Viana mencionou que o presidente é a favor de abrir as relações com outras nações.
“Acho que o Brasil não tem que focar em que vantagem vamos tirar nisso. Até porque o presidente Lula é do multilateralismo”, disse.
O chefe da Apex defendeu a posição do Mdic e do Itamaraty têm tomado desde a eleição de Trump: aguardar.
O governo tem defendido cautela quanto às medidas dos Estados Unidos desde as eleições norte-americanas, em novembro –há 5 meses. Questionado se ainda vale ter paciência depois desse tempo, Viana respondeu o seguinte: “Não tem muito o que fazer, senão aguardar”.
Para ele, os Estados Unidos ainda estão com dificuldades internas de colocar as medidas em prática. Assim, também seria necessário aguardar qual será o comportamento do ponto de vista global.
“O governo [norte-americano] deverá ter muita dificuldade interna de implementar o que está sendo anunciado e temos que aguardar um pouco isso, porque mexe muito com a economia. Se isso é um fato, a posição do Brasil até aqui tem sido muito certa”.
Questionado sobre uma eventual retaliação para o governo Trump, Viana não deixou um posicionamento claro. Mas elogiou o Congresso Nacional por ter aprovado com rapidez o projeto que permite a reciprocidade no comércio exterior.
RELAÇÃO COM OS EUA DE TRUMP
Viana disse que, apesar das tarifas, seria necessário manter as relações fortes com os Estados Unidos. Segundo ele, é o “melhor parceiro comercial” do Brasil.
Ele fez uma comparação com a China. Apesar de o Brasil vender mais à nação asiática, Jorge afirma que os norte-americanos compram produtos de setores mais desenvolvidos.
“O maior parceiro comercial do Brasil é a China. Mas o melhor são os EUA […] Porque, do ponto de vista da qualidade do que a gente exporta, os Estados Unidos são muito melhores”.
Viana voltou a defender negociações com o governo de Donald Trump, eventualmente com um envolvimento do presidente Lula. O petista já havia sinalizado essa possibilidade durante sua viagem ao Japão no fim de março.
“Acho que nós não devemos desistir dos EUA. É a maior economia. Temos que buscar entendimento”, declarou.
O TARIFAÇO
A política comercial de Donald Trump atingiu seu ápice na 4ª feira (2.abr), com o início da cobrança das tarifas recíprocas. O presidente apelidou a data de “Liberation Day” (“Dia da Libertação”, em português) porque, segundo ele, marca o momento em que os EUA se libertam do que ele chamou de comércio estrangeiro “injusto”.
O republicano aplicou diversas tarifas sobre produtos e parceiros comerciais desde o início de seu 2º mandado, em 20 de janeiro, com o objetivo de fortalecer a economia do país, reverter deficits comerciais e recuperar a competitividade da indústria norte-americana.
A 1ª medida tarifária foi anunciada em 1º de fevereiro. Na ocasião, Trump aplicou 25% sobre produtos do México e do Canadá com a justificativa de que os países eram responsáveis pela chegada de “inúmeros e horríveis”imigrantes aos EUA, pela entrada de drogas no país e pelo deficit nas contas públicas.
O pacote entrou em vigor em 4 de março, depois de negociações com a presidente do México, Claudia Sheinbaum (Morena, esquerda), e o então primeiro-ministro do Canadá, Justin Trudeau (Partido Liberal, centro-esquerda).
Eis a linha do tempo da política comercial de Trump: