Congresso em Foco

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O Congresso produziu nesta semana cenas de política de gente adulta. No país da polarização, adversários conseguiram se unir em torno de um projeto, a Lei da Reciprocidade, que dá ao governo instrumentos para responder a barreiras comerciais ou medidas protecionistas que prejudiquem as exportações nacionais. No Senado, a votação foi unânime: 70 votos. Na Câmara, na noite de quarta-feira, foram 361 votos a favor, dez contra e duas abstenções.

O projeto nasceu bem antes da ofensiva de Trump sobre o comércio mundial, voltado para o agro. A intenção do autor, senador Zequinha Marinho, era ter ferramentas para retaliar regras ambientais, impostas sobretudo pela União Europeia, para os produtos brasileiros. A relatora, senadora Tereza Cristina, refez o texto, adaptando-o à nova conjuntura.

No Senado, a convergência ficou clara no placar. Já na Câmara, apesar de o projeto ser resultado do trabalho de dois senadores de oposição, o PL de Jair Bolsonaro tentou impedir a votação, declarando-se em obstrução. O partido exigia que o presidente Hugo Mota coloque em pauta o pedido de urgência para o projeto de anistia aos condenados pelos atos de 8 de janeiro de 2023. A pressão da maioria, porém, isolou os bolsonaristas.

O líder do partido, Sóstenes Cavalcante, anunciou o recuo: Isso não é um salvo conduto para esse desgoverno, que não merece de nós, o maior partido da oposição, nenhum cheque em branco, afirmou, justificando a mudança de posição como gesto de apoio ao agronegócio.

O líder do PL na Câmara, Sóstenes Cavalcante (PL-RJ): partido tenta fazer pressão para a Casa aprovar projeto de anistia.

O líder do PL na Câmara, Sóstenes Cavalcante (PL-RJ): partido tenta fazer pressão para a Casa aprovar projeto de anistia.Kayo Magalhães/Câmara dos Deputados

Longe de ser uma vitória do governo ou dos ruralistas, a votação foi resultado de ação política e mostra que a campanha eleitoral para 2026 começou há tempos. A pauta da anistia não morreu, mas ficou claro que não é prioridade para a oposição, que se uniu para votar o projeto, não para apoiar a reivindicação bolsonarista. Jair Bolsonaro, porém, não se deu por vencido. Nas redes, disse que votaria contra a proposta. Os números mostram que falou praticamente sozinho.

O capitão tem ainda grande capital político, mas está inelegível e corre risco de ser preso. Os partidos da centro-direita estão oferecendo opções para o eleitor não petista. O governador de Goiás, Ronaldo Caiado, do União Brasil, oficializa o início de sua campanha nesta sexta-feira, num ato em Salvador. Ratinho Junior, do PSD do Paraná, investe para ser mais conhecido. O mineiro Romeu Zema, idem. Todos querem ganhar eleitor bolsonarista, mas não necessariamente ter Jair Bolsonaro ao lado no palanque.

Ainda não se sabe qual será o real efeito da política trumpista na economia nacional. O Brasil pode até se sair bem em relação às medidas anunciadas, mas o sistema de comércio mundial entrou em convulsão, assim como a ordem política forjada pelos próprios Estados Unidos depois da Segunda Guerra Mundial. O país terá de se posicionar e fazer escolhas; estimular novas alianças; conquistar mercados.

A votação da Lei da Reciprocidade não antecipa alianças eleitorais. Mas indica que os bonés americanos com slogans trumpistas não serão bom material de propaganda em 2026. Espera-se que os adultos continuem na sala até lá.

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