Era pouco mais de seis horas da manhã quando dois homens em uma moto se aproximaram de Vitor Medrado, 46 anos, que havia saído de casa para mais um de seus treinos de bicicleta. Como de costume, ele pedalava pelo Itaim Bibi, uma das áreas mais nobres de São Paulo, acreditando estar seguro em um bairro cercado por prédios de alto padrão, ruas movimentadas e câmeras de segurança, em plena luz do dia. No entanto, sem hesitação, o garupa sacou uma arma e atirou. Vitor caiu da bicicleta, sem ter chance de reação. No chão, agonizava enquanto o criminoso recolhia um simples celular o preço de sua vida.
Ciclistas depositam flores na calçada da rua onde Vitor Medrado foi assassinado por um motoqueiro após roubarem seu celular Eduardo Knapp/Folhapress
O assassinato brutal de Vitor chocou o Brasil, mas a verdade é que este não foi um caso isolado. Em 2024, ao menos 53 pessoas foram mortas durante assaltos em São Paulo, e quase metade dos casos ocorreu na Zona Sul, onde os latrocínios cresceram 73% em comparação com o ano anterior. Na Zona Oeste, onde Vitor foi assassinado, os casos também aumentaram, subindo de cinco para oito. Na Zona Norte, os latrocínios dobraram, passando de três para seis.
E não adianta apenas reforçar o policiamento. A polícia prende, mas o sistema solta. As audiências de custódia colocam criminosos de volta às ruas no mesmo dia, as chamadas “saidinhas” libertam condenados que muitas vezes sequer retornam às prisões, e agora o governo insiste em empurrar pacotes legislativos que afrouxam ainda mais as punições. Para quem escolheu o caminho do crime, São Paulo é um paraíso. Para quem trabalha e paga impostos, a cidade se tornou um pesadelo.
O crime já não se limita a furtos, assaltos e tráfico de drogas. Facções criminosas expandiram seus negócios para setores altamente lucrativos e de menor risco penal, como contrabando de combustíveis, ouro, cigarros e bebidas, além de crimes cibernéticos. Segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, essas novas frentes já geram mais dinheiro do que a venda de drogas. Os números são alarmantes: crimes cibernéticos e roubo de celulares renderam cerca de R$ 186,1 bilhões; comércio ilegal de combustíveis, cigarros, ouro e bebidas movimentou aproximadamente R$ 146,8 bilhões; enquanto o tráfico de cocaína, que antes era a principal fonte de renda das facções, arrecadou “apenas” R$ 15,2 bilhões. A migração para esses setores não é coincidência criminosos buscam áreas onde as penas são mais brandas e a fiscalização é falha, utilizando essas atividades para lavar dinheiro e expandir sua influência.
O crime já não tem hora, lugar ou alvo. Em novembro do ano passado, um empresário delator do PCC foi executado a tiros de fuzil no Aeroporto Internacional de São Paulo, em Guarulhos, em plena luz do dia. Uma cena de guerra, digna dos tempos mais sombrios da Colômbia, aconteceu diante de centenas de pessoas, escancarando a ousadia das facções criminosas e a impotência do Estado. Se até no maior aeroporto do país, sob câmeras de segurança e a presença de policiais, criminosos agem com tamanha brutalidade, o que resta para o cidadão comum?
Enquanto criminosos circulam livremente, matando em plena luz do dia e transformando São Paulo em uma terra sem lei, a Defensoria Pública se preocupa em restringir o uso de reconhecimento facial no carnaval e em manifestações. O Smart Sampa já ajudou a capturar mais de 2.600 criminosos, incluindo foragidos da Justiça e agressores de mulheres que descumprem medidas protetivas. Mas, em vez de fortalecer esse recurso, a Defensoria quer limitar seu uso com argumentos abstratos sobre “discriminação”. A quem realmente interessa impedir que bandidos sejam identificados?
Não há “bala de prata” para resolver o problema da segurança pública, mas algumas medidas são essenciais. Crimes violentos e ligados ao crime organizado precisam de punições mais rigorosas, sem brechas legais que favoreçam a impunidade. É preciso cortar o fluxo de dinheiro ilícito e combater a lavagem de dinheiro para enfraquecer as facções. Não basta prender é preciso garantir que criminosos perigosos permaneçam presos. Usar tecnologia para mapear atividades criminosas é inadiável!
O ciclo da impunidade se repete sem fim, transformando os cidadãos em reféns de uma violência que parece incontrolável. Enquanto criminosos circulam livremente, quem trabalha e paga seus impostos se tranca em casa, escolhe meticulosamente seus caminhos, evita sair com objetos de valor, desinstala aplicativos de bancos do celular e aprende a conviver com o medo. A cidade que deveria oferecer oportunidades e progresso se tornou uma armadilha, onde o direito de ir e vir pertence apenas aos bandidos.
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