Tarifas recíprocas de Trump entram em vigor nesta 4ª

Tarifas recíprocas de Trump entram em vigor nesta 4ª


A medida foi apelidada de “Liberation Day” pelo presidente dos EUA; especialistas veem como uma combinação de protecionismo econômico e estratégia política

A política comercial do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump (Republicano), atinge seu ápice nesta 4ª feira (2.abr.2025), com o início da cobrança das tarifas recíprocas.

Trump apelidou a data de “Liberation Day” (“Dia da Libertação”, em português) porque, segundo ele, marcará o momento que os EUA se libertarão de produtos estrangeiros.

As novas tarifas se somam às demais taxas impostas pelo republicano desde o início de seu 2º mandato, em 20 de janeiro. Relembre:

Com elas, Trump busca atingir parceiros comerciais que impõem barreiras consideradas “injustas” por ele. Os países afetados e outros detalhes serão anunciados também nesta 4ª (2.abr), a partir das 17h (horário de Brasília). Resta saber se o Brasil está entre eles.

A Casa Branca já teria uma lista com os chamados “Dirty 15” (ou “15 sujos”, em português), que inclui países como China, México, Canadá, Taiwan, além da UE (União Europeia). 

Segundo José Alfredo Graça Lima, vice-presidente do Conselho Curador do Cebri (Centro Brasileiro de Relações Internacionais) e embaixador que já atuou na OMC (Organização Mundial do Comércio), os alvos das tarifas podem ter sido selecionados por critérios “mais políticos” ou “mais econômico-comerciais”.   

“Pelo critério econômico-comercial, o Brasil não deveria constar nessa lista. Mas como o Brasil está sempre sendo citado por Trump como um país que deve contribuir mais nas relações comerciais, embora os Estados Unidos tenha um superavit no comércio com o Brasil, vamos ter que aguardar”, disse em entrevista ao Poder360.

Depois que Trump assinou o decreto para impor as tarifas recíprocas, em 13 de fevereiro, a Casa Branca divulgou um documento em que cita o etanol brasileiro para exemplificar um tipo de cobrança tarifária “desproporcional” enfrentada pelos Estados Unidos. Afirma que “a tarifa dos EUA sobre o etanol é de somente 2,5%”, mas que o Brasil cobra uma taxa de 18% sobre as exportações de etanol norte-americano. 

Apesar desse “desiquilíbrio” apresentado pela administração norte-americana, o superavit que os EUA têm com o Brasil é um dos argumentos usados pelo governo brasileiro para convencer a Casa Branca a isentar o país das tarifas.

Caso isso não ocorra, especialistas avaliam que os efeitos dessa medida pode variar conforme os setores e as estratégias adotadas pelo Brasil. 

Cristina Helena de Mello, economista e professora da PUC-SP (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo), explica que o país, possivelmente, terá uma redução das exportações de alguns produtos para os EUA. 

Pondera, no entanto, que isso pode até resultar em benefícios para o Brasil se esses produtos forem redirecionados para o mercado interno, impulsionando a indústria nacional e fortalecendo cadeias produtivas locais. 

Ela cita como exemplo o etanol que, ao deixar de ser exportado, “pode se tornar mais barato no Brasil, beneficiando o custo do combustível e reduzindo a inflação”

Além disso, a menor dependência do mercado externo pode incentivar a diversificação das exportações e o desenvolvimento de novas oportunidades comerciais em outros países. Isso tudo, no entanto, só será possível se o Brasil tiver uma estratégia, segundo a especialista. 

Mello e Lima também avaliam que a melhor estratégia para o Brasil seria a negociação com os EUA caso o país estabeleça as tarifas recíprocas sobre produtos brasileiros. O embaixador alerta que uma eventual retaliação do governo brasileiro seria uma estratégia arriscada. 

“Nunca acreditei que a retaliação é uma boa solução nem para um lado, nem para o outro. Mas o comércio é muitas vezes afetado e prejudicado por decisões políticas e pode acontecer que, para um determinado produto, o Brasil também decida impor uma tarifa”, disse. 

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) prometeu em 26 de março sobretaxar produtos dos Estados Unidos se um recurso na OMC não resolver a questão das taxas adicionais cobradas por Trump ao aço e ao alumínio brasileiros desde 12 de março. Ele pode adotar uma medida semelhante no caso das tarifas recíprocas. 

Na 3ª feira (1º.abr), a Comissão de Assuntos Econômicos do Senado aprovou um projeto para permitir que o Brasil adote reciprocidade tarifária e ambiental no comércio com outros países, numa resposta ao aumento de tarifas dos Estados Unidos. O texto seguiu direto para a Câmara dos Deputados.

O projeto foi idealizado pela oposição ao governo de Lula e foi articulado pela bancada do agro, mas contou com o apoio de aliados do Palácio do Planalto durante a tramitação. Caso nenhum senador peça análise em plenário, a medida irá diretamente para a Câmara dos Deputados. 

COMÉRCIO COM OUTROS PAÍSES

A dupla México e Canadá e a China, os primeiros países a serem atingidos pela política de Trump quando foram taxados em 25% e em 10%, respectivamente, são os 3 maiores parceiros comerciais dos Estados Unidos. Movimentaram US$ 2,18 trilhões com os norte-americanos em 2024. São os países que os EUA mais exportam e importam. 

Os EUA, porém, têm deficit comercial com os 3 países, quando comprar mais que vendem. O principal destaque é com a China. O saldo comercial é negativo em US$ 295,4 bilhões.

No ano passado, a corrente comercial foi de US$ 839,9 bilhões no México, de US$ 762,1 bilhões no Canadá e de US$ 582,5 bilhões na China. 

ESTRATÉGIA DE TRUMP 

As tarifas impostas pelo republicano representam uma combinação de estratégia política e protecionismo econômico. Segundo Laerte Apolinário, professor de relações internacionais da PUC-SP, “Trump usa tarifas como ferramenta de negociação e pressão, especialmente contra parceiros comerciais que ele considera ‘injustos’”

De maneira semelhante, a professora Cristina Helena de Mello afirma que o presidente norte-americano atua “como se fosse de fato um CEO de uma empresa”. [Ele] abriu a carteira de negociações com vários países para beneficiar o seu porque ele tem um compromisso de campanha que é fazer os Estados Unidos grande novamente”, analisa a economista. 

Nesse contexto, Apolinário avalia que existe “um viés protecionista de longo prazo”, alinhado com o discurso de Trump sobre fortalecer a indústria norte-americana. Os principais objetivos dessa política incluem reduzir deficits comerciais, aumentar a arrecadação governamental, proteger setores estratégicos e reforçar sua base eleitoral no cinturão industrial dos Estados Unidos.

O especialista também explica que, do ponto de vista eleitoral, a estratégia de Trump pode ampliar seu apoio entre trabalhadores da indústria e setores que se sentem prejudicados pela concorrência internacional, como siderurgia e manufatura. 

Ele alerta, no entanto, que “há o risco de aumento de preços para consumidores e represálias de parceiros comerciais, o que pode provocar aumento de custos para a indústria, além de críticas de outros setores da economia norte-americana”.

No cenário internacional, a atitude protecionista dos EUA pode enfraquecer sua posição no comércio global, levar nações emergentes a fortalecerem blocos alternativos, como os Brics, e a buscarem novos acordos comerciais sem a participação norte-americana. 

“A China, em particular, pode se beneficiar desse cenário ao se apresentar como um parceiro comercial mais estável e previsível para países afetados pela política de Trump”, disse o professor. 

Nesse sentido, o embaixador José Alfredo afirma que o comércio internacional tem uma capacidade natural de se reorganizar diante de barreiras protecionistas. 

Segundo ele, embora a postura unilateral dos Estados Unidos possa inicialmente causar certa desordem, essa situação tende a criar uma reestruturação do comércio global, permitindo que novas parcerias e mercados se fortaleçam. 

Dessa forma, a médio e longo prazo, a economia mundial pode encontrar formas de compensar os impactos das medidas protecionistas norte-americanas, reduzindo prejuízos globais significativos. 





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