A crítica ganhou corpo especialmente entre os cariocas, que conhecem a lógica — e o preconceito velado — de parte da elite da cidade com o bairro
A mansão da poderosa família Roitman foi exibida no capítulo desta terça-feira, 1 de abril, e a localização escolhida pela equipe da nova versão de “Vale Tudo” andou gerando polêmica. No remake da clássica novela das nove da Globo, que estreou no último dia 31, os Roitman trocaram o Joá — onde viviam na versão de 1988 — por um casarão na Glória, bairro histórico da Zona Sul do Rio. A mudança, que parece sutil no roteiro, provocou forte reação nas redes.
O casarão em questão fica colado à Igreja do Outeiro da Glória e oferece uma vista deslumbrante para o Aterro do Flamengo e a Baía de Guanabara. É lá que vivem Celina (Malu Galli), Afonso (Humberto Carrão) e Heleninha (Paolla Oliveira). Já a vilã Odete Roitman, agora interpretada por Débora Bloch, aparecerá oficialmente morando na suíte de um hotel de luxo, mas suas principais cenas em família acontecerão na mansão.
A casa — inédita como locação nas novelas da Globo — ocupa grande parte de um quarteirão e tem também entrada pela Rua Barão de Guaratiba. E embora seja, de fato, um imóvel imponente e bem localizado, muitos espectadores acharam a escolha incoerente com o perfil da família.
“Odete Roitman na Glória? Nem pensar”, escreveu um usuário no X (antigo Twitter). “Ela jamais aceitaria isso. No máximo, Praia do Flamengo. E olhe lá.” A crítica ganhou corpo especialmente entre os cariocas, que conhecem a lógica — e o preconceito velado — de parte da elite da cidade. A versão original reforçava isso: Odete morava em um refúgio isolado no Joá, longe do centro e acima da “ralé”.
Nos bastidores, a escolha do bairro também levanta outras interpretações. A Glória tem passado por um processo de valorização e rebranding. O retrofit do antigo Hotel Glória, os novos empreendimentos residenciais e a eleição do bairro como um dos “mais legais do mundo” pela revista Time Out, em setembro passado, reacenderam o interesse de investidores. Colocar os Roitman ali pode ser, para alguns, uma tentativa de reforçar essa imagem de “novo luxo histórico” que o mercado tenta vender.
Mas nem todos compraram a ideia. “A Glória é charmosa, tem história, tem cultura. Mas não é bairro de milionário esnobe como a Odete. Isso é forçação de barra”, opinou outra espectadora.
A novela atual acerta ao atualizar questões raciais e sociais — como ao escalar atrizes negras em papéis centrais e revisar certas estruturas. Mas, nesse caso específico, parte do público sente que a mudança geográfica quebra a verossimilhança de um núcleo que representa justamente o conservadorismo elitista.
Se por um lado a escolha reforça um Rio de Janeiro mais plural e menos caricatural, por outro pode gerar ruído com o perfil estabelecido da personagem. Afinal, “Vale Tudo” sempre falou sobre aparência, status e contradições. E poucas coisas revelam tanto sobre uma pessoa quanto o endereço onde ela mora.